PUBLICAÇÃO

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O investigador do CIAC, Pedro Alves da Veiga, acaba de publicar o artigo “Arte Quântica” na Interact #30 – Revista Online de Arte, Cultura e Tecnologia.

Pedro Alves da Veiga, investigador do CIAC que tem dedicado à investigação nas áreas da arte generativa, arte e sociedade, sustentabilidade, artivismo, hactivismo e curadoria de arte digital, publicou recentemente um artigo sobre arte quântica no número 30 da Revista Online de Arte, Cultura e Tecnologia, no qual aborda questões da prática artística na pós-modernidade.

Resumo:

Vivemos numa época de estetização global, dos pratos servidos nos restaurantes gourmet aos edifícios de assinatura, das intervenções nas melhores cidades para visitar, aos museus com percursos e narrativas interativas, da banalização e coexistência de imagens de solidão, pobreza, opulência, fantasia e conflito. Paradoxalmente, as redes interconectadas de comunicação digital parecem conduzir a um conformismo e comodismo na vida real, contrastado com as petições, confrontos escritos e memes online, um pálido reflexo do ativismo de outros tempos, mas dele perigosamente travestido. A prática artística encontra-se maioritariamente desfuncionalizada, desprovida de uma missão transformadora, em grande parte reduzida a decoração e entretenimento. Misturam-se chavões pseudo-sociais com outros tantos de pseudo-inovação tecnológica, na sofreguidão da busca pela novidade: fluidez de género e realidade aumentada, wanderlust e inteligência artificial, segundo renascimento e pós-Internet. Outrora as vanguardas artísticas, recusando a aceitação passiva da autoridade criativa, estética e política das fontes distribuidoras, utilizavam os materiais existentes de forma adulterada e criativa para gerarem o seu próprio conjunto de ideais e valores, em conflito com a cultura de massas. Atualmente, muito do remix digital que ocorre sobre produtos e marcas, é frequentemente promovido pelas próprias marcas. Os trend-setters são disputados por empresas e mass-media, e por eles também transformados em estrelas mediáticas, ao serviço do lucro corporativo: é crucial inundar o mercado com produtos vagamente semelhantes (e convém notar que entre esses produtos estão artistas e respetivas obras de arte), na expetativa de que um deles se destaque. A velocidade e densidade do fluxo destes produtos/informação tem como efeito imediato que a fruição de qualquer artefacto nas redes sociais (fotografia, vídeo, música ou pensamento) seja, paradoxalmente, um ato individual, realizado no menor espaço de tempo possível: apenas o suficiente para avaliar a reação imediata (gosto?) e decidir da partilha, em consonância estética com o feed. A real fruição não é conjunta, por mais partilhas que origine. A pós-modernidade é palco de representações e imagens com alta carga de apelo emocional, polido e vibrante, todas mostradas como sendo o futuro, mas de onde a inovação ideológica está ausente. “A forma precede a função” parece ter-se tornado o epíteto do homem pós-moderno, mais preocupado com o que parece do que com o que é. E neste cenário será possível uma vanguarda de artistas/ativistas – ou artivistas – desenvolver-se, sem ser imediatamente devorada pela análise de tendências e transformada em produto? Uma das respostas possíveis – e animadora – é positiva: em vez de se submeter a um certo número de possibilidades impostas pelo aparato técnico-consumista, há uma vanguarda artística que subverte continuamente a função das ferramentas digitais de criação e comunicação, os dispositivos móveis e respetivo software, que os maneja no sentido contrário da sua produtividade programada. Em suma, os artivistas infiltram as redes e os sistemas culturais e alteram a sua codificação de forma crítica, frequentemente subversiva, quase como um jogo cujas regras mudam permanentemente, lidando com códigos, mensagens e valores sociais, onde tudo é fluxo, potencial e mutação. Bem-vindos à idade da arte quântica.
O artigo pode ser consultado aqui.